Alckmin versus Ciro?

GAUDÊNCIO TORQUATO*

A sete meses das eleições, não há sinais que garantam quem estará subindo ao pódio do 2º turno. Lula, exibindo folgada liderança no processo eleitoral (33,4% em recente pesquisa da CNT/MDA), ao que tudo indica deve ser impedido pela Justiça de ser candidato. O deputado Jair Bolsonaro (16,8% na mesma pesquisa) tende a ver sua margem diminuída em razão de certos fatores: curto espaço de mídia eleitoral; perfil de viés autoritário, cujo desdobramento deve descambar para forte bombardeio sobre o ideário por parte de adversários; despreparo para discorrer sobre temas prioritários, a partir da economia.

A eventual saída de Lula da arena praticamente inviabiliza as chances do PT, a ser alvo central de intenso tiroteio que se espera no pleito mais competitivo da contemporaneidade. Nem Haddad nem Jaques Wagner teriam envergadura para levar adiante a carruagem petista. Mas Luiz Inácio, é oportuno lembrar, será grande eleitor, esteja dentro ou fora da prisão, devendo com seu verbo denunciativo arrastar candidatos proporcionais e majoritários do PT em todas as regiões. O PT quer sair vivo e forte da batalha eleitoral sob pena de ver naufragado o esforço de três décadas.

Para concretizar a meta, o partido conta com duas hipóteses: escolher um de seus quadros – podendo ser mesmo Haddad ou Wagner – mais para dar cobertura a seus candidatos nos Estados do que para alcançar vitória; vir a apoiar uma candidatura do seu campo ideológico ou ainda um protagonista próximo ao seu escopo. O tal de Guilherme Boulos, do PSOL, sem chances, não seria o caso; Marina Silva distanciou-se do petismo. Sobraria Ciro Gomes, do PDT. Ciro, paulista com vida social e política no Ceará, é uma metralhadora ambulante. Sua língua afiada é considerada uma arma que se volta contra ele mesmo. Mas não se discute seu preparo e competência. O figurante é preparado.

Acaba de desferir mais um sopapo no PT e Lula, ao dizer que nem tudo que se diz contra eles é “conspirata” e, ainda: o partido é como “escorpião, afunda-se sozinho”. O pedetista defende posições assemelhadas ao que defende o petismo, a partir de sua contrariedade sobre a privatização da Petrobras, garantindo que se a Eletrobras for privatizada, ele a puxará de volta para as mãos do Estado. Portanto, sua visão estatizante o insere no campo de centro-esquerda, não necessariamente na extremidade do arco ideológico. A proximidade conceitual com partidos de esquerda – PC do B, PSB – seria, dessa forma, credencial para habilitá-lo a ganhar apoio desses entes em um segundo turno, se alcançar tal patamar.

O ex-ministro e ex-governador do Ceará conta com bom lastro no Nordeste, onde é bastante conhecido. A região tem 27% dos votos válidos do país. E sua linguagem desabrida calha bem ao momento. O eleitor quer ouvir um discurso claro, palavras expressas com energia, ante a descrença (e até certo desprezo) para com a classe política. Ciro tem boa performance em debates. E pode sobressair no deserto de ideias habitado por alguns candidatos. Teria condições de crescer.

Seu opositor, considerando os atuais pretendentes, deve ser o governador Geraldo Alckmin. Experiente, com muitos anos à frente do Estado mais poderoso da Federação, Alckmin conta com boa avaliação dos paulistas. São Paulo tem mais de 33 milhões de eleitores, cerca de 22% do eleitorado nacional. Se conseguir sair de São Paulo com grande bacia de votos, compensaria eventual pequena votação a obter no Nordeste. Por esse raciocínio, é razoável projetar um segundo turno com Ciro Gomes e Geraldo Alckmin, um representando o centro-esquerda e outro o centro-direita.

Claro, o Senhor Imponderável dos Anjos poderá aparecer de repente e desfazer todos os fios da nossa argumentação.

*Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato

Unit´