Vítimas de tragédia podem desenvolver Problemas Psicológicos

Ticiana Rangel*

Há um ano e quatro dias (24/08/2017), a Bahia acordou de luto. Segundo a Marinha, informações passadas pela Associação dos Transportadores Marítimos da Bahia (Astramab) apontam que a embarcação Cavalo Marinho I tinha capacidade total de 160 pessoas e deixou 19 mortos e cerca de 100 feridos. Até hoje, muitas famílias se encontram desesperadas e os sobreviventes traumatizados.

Foto: Divulgação

O trauma psicológico é um tipo de dano emocional que ocorre como resultado de algum acontecimento ruim. O trauma pode ser causado por vários tipos de eventos, mas há aspectos em comum. Geralmente, envolve o sentimento de completo desamparo, diante de uma ameaça real ou subjetiva à própria vida, ou à vida de pessoas amadas, ou à integridade do corpo. Um trauma pode, frequentemente, violar as ideias do indivíduo a respeito do mundo, colocando-o em estado de extrema confusão e insegurança.

Acontecem nos caso de tratamento de transtorno de estresse traumático e pós-traumático (TEPT), quadros de ansiedade, depressão, fobias, síndrome do pânico, instalação de recursos positivos e outros. Os transtornos somatoformes, decorrentes do trauma, podem provocar dor de cabeça, gastrite, alergias, palpitações entre outros sintomas, que podem ser reflexo de um problema maior e psicológico.

Ter uma doença psicossomática não significa que a dor e a enfermidade não existam. Pelo contrário, a pessoa realmente está em sofrimento, sente as dores, observa as feridas, as marcas, queda do seu cabelo ou dos pelos de seu corpo, e mesmo não tendo sido diagnosticada uma causa biológica ou orgânica, a pessoa sabe que há algo errado consigo e isso gera muito sofrimento.
A somatização funciona como uma válvula de escape para emoções e sentimentos, com os quais o sujeito não consegue lidar, ou seja, o corpo fala aquilo que a mente não consegue elaborar.
As múltiplas expressões secundárias ao trauma diminuem as chances para o diagnóstico assertivo ocorrer, enquanto quadros mais conhecidos, como depressão, enxaqueca, fibromialgia, etc., são abordados primeiramente.

Por outro lado, se as causas não forem tratadas, as queixas se tornam crônicas com prejuízos crescentes à qualidade de vida. O expressivo número de pessoas afetadas pelo trauma psicológico requer tratamento especializado.

A psicoterapia tem sido indicada como a primeira linha de tratamento ao trauma, por ser a estratégia mais relevante para diminuição do risco de cronicidade. O tratamento adequado precoce também pode evitar a configuração do TEPT, a emersão de comorbidades assim como o deslocamento de sintomas para expressões somáticas.

Sendo assim, o tratamento psicoterápico pretende exercer uma função de continente das angústias e dúvidas, visando sempre a melhoria da qualidade de vida, além de ser um recurso que acompanha o sujeito durante um tempo limitado, sem o afastamento do seu meio social, familiar, de trabalho ou acadêmico, prevenindo a reclusão do sujeito psíquico.

O psicólogo é fortemente identificado com o papel de facilitador para o processo de recuperação. Esse profissional é um dos geradores da saúde mental, que possibilita melhoria na qualidade de vida, sendo percebido como alguém a quem se pode recorrer na busca de acolhimento, em situações consideradas difíceis.

*Especialista em Terapia Cognitiva Comportamental e em Saúde Mental Coletiva, Ticiana Rangel é psicóloga da Clínica Fênix

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