O ponto do meio

Em épocas de crise, estamos, todos, vivendo a mesma realidade. Pessoas tomam lados como se soubessem, com certeza, o que estão dizendo. Há um amor pela opinião própria e, também, o viés de atribuir ao outro a nota do erro, do equívoco. O sujeito se enuncia e se coloca na posição de julgador, às vezes, de julgador de gente. Mas ao “fazer esse juízo”, o fato é que o sujeito faz “conforme a perspectiva” que tem e, apenas, conforme o juízo que fez.

A perspectiva é o modo pelo qual concebemos alguma coisa, um ponto de vista. Assim dizemos “pela minha perspectiva, você está errado!”. Também é o lugar de onde se avista algo, “olhando de longe, a locomotiva é tão pequena!”. Há também o sentido de esperança, “tenho a perspectiva de tempos melhores!”. Pode-se, mesmo, dizer que é sinônimo de aparência, panorama, possibilidade, vista, ponto de vista, expectativa, contingência, aspecto (“os filhos davam uma perspectiva dourada à sua existência)””.

Assim, toda opinião está vinculada, intimamente ligada, à perspectiva do sujeito. Comparando o mundo a um jardim, se olharmos bem de perto, poderemos ver o escaravelho chafurdar o esterco, mas também podemos olhar a rosa e sentir o seu perfume, mas sem descuidar, a rosa tem espinho.

Se hoje vivemos uma crise, a perspectiva de que tudo está ruim é só um jeito de olhar, de perto ou de longe. Afastando-nos mais, o grande fica pequeno e o que não era percebido se transforma em coisa notável.

Neste último século, por exemplo, saímos de duas guerras mundiais, infamantes da humanidade e, ao final, terminamos o Século XX conectando pessoas, criamos a internet, aproximamos gente de gente. O Brasil, se considerarmos como marco o ano de 1808, quando a corte portuguesa aqui se instalou, em apenas duzentos anos, saiu do sistema ignominioso da escravidão e, hoje, sustenta eleições livres e o regime jurídico do Estado Democrático de Direito.

Foi a ideia de uma humanidade justa, igual e fraterna que fez as ações e as leis se tornarem assim. Não se pode desprezar esta ideia. Menos ainda, desprezar a realidade. A relação entre ideia e realidade poe o homem entre dois mundos, o mundo de dentro, subjetivo, e o mundo externo de si, das coisas.

Assim, é preciso concluir, há entre esses dois mundos a perspectiva de um jardim. Há flores e espinho, escaravelho e esterco, chão e céu, sol e chuva. O sol Deus fez democrático, a única democracia que verdadeiramente é igual para todos e é real, por isso, só poderia ser Divina. Então, a diferença está no jardineiro, no fazer de cada mulher e de cada homem, criança e adultos, na bondade do olhar e na perspectiva que o sujeito tem do próprio jardim.

 

* por Gustavo Rubens Hungria (Juiz de Direito da 2a Vara da Fazenda Pública de Feira de Santana)

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