OAB quer institucionalizar o fura-fila para, acreditem, dar celeridade à Justiça

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José Carlos Teixeira*

 

 

“Já faz mais de cinco horas que eu estou a esperar
A fila está crescendo demais
E agora esse rapaz está querendo furar

Não fura não a minha fila, fura não”
(
Furaram a Fila do Seu Mané,

baião de Zenilton e João Caetano)

 

A fila é a mais corriqueira e representativa imagem da tão falada, decantada e desejada igualdade, como já escrevi nesse espaço, repetindo o que dizem estudiosos do comportamento humano. Nela todos são iguais e regidos por uma única lei não escrita: quem chega entra no fim e espera sua vez.

Para usar uma imagem mais próxima daqueles que lidam com as questões da Justiça e do Direito, podemos dizer, data venia, que a fila é a mais perfeita tradução do espírito do artigo 5º da Constituição Federal. Aquele que diz que todos somos iguais perante a lei.

Quer dizer, isso em princípio, na estrita forma da lei, pois na prática não é bem assim. Afinal, no mundo real, embora o sol nasça para todos, a sombra fica para os mais vivos, como bem alertava o saudoso jornalista carioca Sérgio Porto (1923-1968), mais conhecido pelo pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, com o qual assinou os três volumes de Febeapá (sigla de Festival de Besteira que Assola o País).

Em busca da sombra, dirigentes da seção baiana da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no último dia 18, procuraram o presidente da Assembleia Legislativa da Bahia, deputado Adolfo Menezes, levando debaixo do braço o esboço de um projeto de lei que estabelece prioridade de atendimento nas agências bancárias para advogadas e advogados.

Não, apressado leitor, a iniciativa, no entendimento dos 36 presidentes de subseção da OAB baiana, que a referendaram, não significa a institucionalização de um privilégio para a categoria dos doutos profissionais do Direito. Longe disso. O objetivo, alegam os dirigentes da OAB, é acrescentar celeridade ao sistema de Justiça da Bahia, que prima pela morosidade.

Assim, toda vez que um advogado ou advogada passar à sua frente na fila do banco, amável leitora, nada de reclamar. Sorria, pois você estará frente a um profissional agindo em benefício de toda a sociedade, particularmente daquelas pessoas que, por qualquer motivo, foram levadas a buscar o Judiciário. Bem diferente, pois, daquele que fura a fila por ser adepto da famosa Lei de Gérson, aquela sobre levar vantagem em tudo.

Eu gostei da ideia. Tanto que gostaria que o projeto fosse ampliado para também incluir na futura lei do fura-fila mais três categorias: os policiais, os professores e os profissionais de saúde. Para dar mais celeridade e melhorar o atendimento dos sistemas de segurança, de educação e de saúde da Bahia. A gente está mesmo precisando.

 

Jornalista, não faço questão de tal prerrogativa. Afinal, como quase todo mundo, raramente vou à minha agência bancária. Uso o netbank ou o aplicativo do smartphone para gerir minhas parcas finanças. Até mesmo para pagar os vendedores de laranja nas sinaleiras. Eles têm pix e aquela maquininha para débito e crédito. Assim, passo longe da fila do banco e também ajudo a sociedade.

Ah, o presidente da Assembleia disse ter certeza de que os demais deputados apoiarão a proposta. Que bom!

 

*José Carlos Teixeira é jornalista, graduado em comunicação social pela Universidade Federal da Bahia e pós-graduado em marketing político pela Universidade Católica do Salvador.