Samba e vassouras em novo capítulo da disputa do terceiro turno da eleição em Feira

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José Carlos Teixeira*

O samba, a prontidão
E outras bossas,
São nossas coisas,
São coisas nossas!

(São coisas nossas, de Noel Rosa)

 

Não. Não eram sete, pois sete, diz o povo, é conta de mentiroso. Eram oito. Oito representantes da laboriosa categoria de trabalhadores na educação de Feira de Santana atenderam ao chamamento de seu sindicato para comemorar a não recondução do advogado Carlos Alberto Moura Pinho ao cargo de procurador geral do município.

Trajando camisetas amarelas – algumas de antigas campanhas salariais –, carregando um chamativo estandarte da mesma cor semelhante àqueles usados pelas entidades carnavalescas, as oito professoras, munidas de um balde com água e algumas vassouras, fizeram a lavagem simbólica do esburacado passeio em pedras portuguesas em frente ao prédio da Procuradoria Geral do Município.

Não, amável leitora, eu não estava lá. Mas vi as imagens do samba-manifestação em uma videorreportagem do Acorda Cidade, um dos melhores sites de notícias da Bahia, comandado pelo experiente e respeitável jornalista Dilton Coutinho.

Confesso que fiquei um pouco constrangido. Afinal, as lavagens são uma manifestação cultural tipicamente baiana marcada pela alegria. Não foi o que vi. É verdade que uma ou duas professoras chegaram a balançar o corpo, mas a maioria aparentava não estar à vontade, nem mesmo quando a pequena bandinha contratada para animar a festa atacou uma conhecida música, outrora bastante executada nos cortejos da Lavagem da Igreja e da Levagem da Lenha, antigas manifestações da festa da padroeira da cidade, até serem ambas proibidas pela prefeitura em conluio com a diocese, no distante ano de 1987:

A Lavagem vem

lá da Rua Nova… 

E não completo a letra cantada pelos brincantes para não justificar a proibição, na época apontada como uma ação necessária dos vigilantes da moral e dos bons costumes, em defesa da sacrossanta família feirense, cujos ouvidos é sempre de bom alvitre poupar.

Mas estou divagando, caro leitor. Voltemos ao assunto principal.

A indicação do procurador geral do município é de livre designação do prefeito, escolhido dentre advogados de notável saber jurídico e reputação ilibada. Mas o nome indicado precisa ser aprovado pela Câmara Municipal.

Os vereadores, porém, reprovaram a recondução de Moura Pinho por 11 votos a 9, não por falta de saber jurídico – afinal, ele já estava no cargo – e muito menos por ele não ser detentor de ilibada reputação.

O motivo da reprovação é meramente político. Trata-se de mais um capítulo da disputa do terceiro turno da eleição municipal de 2020, vencida pelo prefeito Colbert Martins, resultado até hoje não aceito por parte de seus adversários, sobretudo os aquartelados na Casa da Cidadania, que é como se autodenomina a Câmara de Vereadores local.

Tal como Jair Bolsonaro, que alega insistentemente ter sido roubado na eleição presidencial de 2018 – mesmo tendo sido eleito –, os adversários de Colbert dizem que ele venceu de forma fraudulenta. E fazem tudo para tirá-lo do cargo ou, ao menos, para prejudicar seu governo – mesmo que isso signifique algum prejuízo para a cidade ou para a população.

Ainda na semana passada, por exemplo, vereadores da oposição discutiram a conveniência de afastar o prefeito do cargo, argumentando que ele estaria padecendo de profunda depressão e que já não estaria governando. Bobagem: acometido de covid 19, o prefeito, que é médico, recolheu-se, guardando a quarentena, como é recomendável.

Ah, e como o sindicato dos professores entrou nessa história? Dois motivos: Moura Pinho é tido pela APLB, entidade de classe dos profissionais da educação, como inimigo número dois da categoria (o número um é o prefeito, é claro) por ter, como a própria função de procurador geral o obriga, defendido a prefeitura em querelas judiciais com o professorado. O segundo motivo é político-partidário: como até mesmo os postes de iluminação da Avenida Getúlio Vargas sabem, a APLB é comandada pelo PCdoB, legenda adversária do prefeito.

A simbiose entre os dirigentes da APLB e os vereadores de oposição ao prefeito é tanta que na sessão da Câmara que votou o pedido de recondução do procurador, a presidente da entidade, Marlede Oliveira, foi convidada a sentar-se à mesa diretora da Casa e ainda usou da palavra, criticando Moura Pinho e pedindo aos vereadores que votassem contra.

A participação de Marlede, aliás, foi um dos motivos que levaram o juiz Nunisvaldo dos Santos, da 2ª Vara da Fazenda Pública, a conceder liminar suspendendo os efeitos da votação, em ação movida por Moura Pinho contra a Câmara, alegando irregularidades na sessão em que a rejeição à sua recondução foi votada.

Judicializada, a questão fica em suspenso até pronunciamento da Justiça sobre o mérito. A Câmara já anunciou que vai recorrer.

Aguardam-se novos capítulos. Mas eu acredito que a Câmara vai levar. Que se preparem as vassouras!

 

*José Carlos Teixeira é jornalista, graduado em comunicação social pela Universidade Federal da Bahia e pós-graduado em marketing político pela Universidade Católica do Salvador.