Surto de microcefalia pode ser problema global

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Vírus pode estar ligado à malformação do crânio de bebês. Foto: Reprodução/Deutsche Welle
Vírus pode estar ligado à malformação do crânio de bebês. Foto: Reprodução/Deutsche Welle

Nesta semana, o Ministério da Saúde informou que a infecção de gestantes pelo zika vírus é a principal hipótese para o aumento do número de casos de microcefalia no Nordeste brasileiro. Com isso, cresce o receio de que o surto possa ocorrer em outras regiões do Brasil e até mesmo em outros países afetados pelo vírus, transmitido pelo mesmo vetor da dengue, o mosquito Aedes aegypti.

“Dezoito estados [brasileiros] já notificaram a presença do vírus. Então, essa preocupação é real, a gente pode ter sim esse aumento de microcefalia em outros estados, desde que esse vírus seja responsável por isso”, afirma Rodrigo Stabeli, vice-presidente de Pesquisa e Laboratórios de Referência da Fiocruz.

Nesta terça-feira (17/11), a fundação divulgou o resultado de exames, realizados a pedido do Ministério da Saúde, que atestaram a presença do zika vírus no líquido amniótico de gestantes cujos bebês tinham microcefalia.

A descoberta não atesta a relação entre a doença e a malformação do crânio, mas é um forte indício. Segundo o Ministério da Saúde, vários testes estão em andamento com o objetivo de chegar a uma comprovação o quanto antes.

“Esperamos ter mais segurança quanto a essa causa em poucas semanas”, afirmou o diretor do Departamento de Vigilância de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Cláudio Maierovitch.

Enquanto isso, especialistas ressaltam que o surto de microcefalia pode ser um problema global. “O mundo inteiro tem razão de se preocupar, porque há bilhões de pessoas vivendo em regiões com o Aedes aegypti”, alerta Fernando Kok, professor de Neurologia Infantil da Faculdade de Medicina da USP.

O ministro da Saúde também afirmou em entrevistas à imprensa que, além de chegar a outros estados brasileiros, o surto pode atingir outros países. Dentro do Brasil, entretanto, a situação continua sendo mais preocupante no Nordeste, onde houve a maior epidemia de zika no país.

Até agora, foram registrados 399 casos de microcefalia em sete estados do Nordeste: Pernambuco, Sergipe, Rio Grande do Norte, Paraíba, Piauí, Ceará e Bahia. Durante todo o ano de 2014, haviam sido 147 em todo o país.

Pernambuco, o estado mais afetado, teve em cinco anos apenas 43 casos – em 2015, já são 268. “A estatística anual foi superada em muito em apenas dois meses”, diz Stabeli.

Suspeita-se que o vírus tenha chegado ao Brasil com turistas durante a Copa do Mundo de 2014. No entanto, a sua identificação foi somente em junho de 2015.

Pico no verão

Os especialistas também estão apreensivos com a chegada do verão, período em que aumentam as chuvas e a reprodução do mosquito transmissor. Segundo especialistas, caso a correlação entre o zika e a microcefalia esteja correta, pode haver um número de casos ainda maior em 2016.

“Existe sim a preocupação de que, durante o primeiro semestre do ano que vem, voltemos a ter uma circulação grande desse vírus. Mas isso é imprevisível, porque pode ser que muita gente tenha ficado imune [à doença] no Nordeste”, afirma Maierovitch.

O diretor também reconhece que o inverso pode ocorrer, e a incidência, aumentar. “Pode ser que o vírus esteja circulando em pequena quantidade e, no momento em que houver condições ideais, ele circule em grande quantidade, até mesmo em estados mais populosos.”

Maierovitch diz que o Ministério da Saúde fará reuniões na próxima semana para debater como intensificar as ações de combate ao mosquito.

Hipótese inédita

A suposta relação entre o zika e a microcefalia nunca foi descrita no mundo, apesar da presença da doença em vários países. Para Stabeli, a correlação não poderia ter sido observada em outros locais por uma questão de amostragem.

“Houve epidemias de zika na Austrália e na Índia, mas de forma muito localizada e, geralmente, próxima a florestas. A primeira vez que aconteceu uma manifestação do zika em centros urbanos muito populosos foi no Brasil. Quando a população afetada é maior, aumenta a probabilidade de se observar certas anomalias”, afirma Stabeli.

Segundo os especialistas, entretanto, não se pode descartar que o surto de microcefalia só tenha ocorrido no Brasil. Para isso, o vírus precisaria, ao chegar ao país, ter sofrido alterações que aumentassem as chances da doença.

Uma segunda possibilidade é que fatores ambientais específicos da região, associados ao vírus, pudessem aumentar a probabilidade da malformação do crânio.

Causas da microcefalia

A microcefalia pode ter diversas causas. Desde doenças genéticas até fatores ambientais, como sangramentos, uso de substâncias químicas durante a gestação, contato com radiação, infecções por bactérias, vírus ou parasitas, entre outros.

Em todos os casos, há uma malformação do cérebro, que não se desenvolve normalmente. Com isso, o crânio não tem seu crescimento estimulado, e a criança nasce com o perímetro da cabeça menor do que a média. O crânio de um bebê nascido a termo, isto é, após nove meses de gravidez, tem pelo menos 34 centímetros de perímetro. Para crianças prematuras, os valores podem variar.

Se a hipótese do zika vírus estiver correta, o processo seria similar ao de outras infecções, como a rubéola, que também pode causar a microcefalia. No caso da zika, a mãe pode transmitir o vírus mesmo sem ter sinais da doença – entre 70% e 80% das pessoas infectadas não apresentam sintomas.

Uma vez no corpo da mãe, o vírus pode romper a barreira protetora da placenta e chegar ao feto. Como o bebê não tem um sistema imunológico maduro, fica vulnerável à doença.

“A placenta é como se fosse uma esponja, que passa os nutrientes, mas não deixa passar vários agentes infecciosos. Mas se um vírus consegue transpor a placenta, então ele encontra o território livre”, explica Kok.

O neurologista afirma que, ao chegar ao sistema nervoso, o vírus destrói os neurônios e, dessa forma, inibe o crescimento do cérebro e do crânio. Por isso, os riscos de desenvolver a microcefalia são maiores no primeiro trimestre de gravidez, quando as células nervosas estão em formação.

A microcefalia não é reversível, e 90% dos afetados possuem algum tipo de deficiência mental. Entretanto, é possível melhorar a qualidade de vida das crianças com tratamentos com fisioterapeutas, fonoaudiólogos, pediatras e neurologistas.

Impactos na saúde pública

Para Kok, o surto de microcefalia é muito preocupante. “Você pode ter uma geração de indivíduos que vão ter problemas por toda a vida, com dificuldades de se locomover, de falar, de se relacionar. O cérebro, uma vez lesionado, tem uma capacidade de reparação muito limitada”, diz.

A necessidade de acompanhamento com equipes multiprofissionais também trará consequências para a rede pública de saúde, afirma Maierovitch. “Teremos um impacto importante no serviço de saúde. Esta é de fato uma situação de muita gravidade para a saúde pública brasileira”, diz.

Recentemente, representantes do Ministério da Saúde disseram à imprensa que aconselhavam mulheres a adiar a gravidez nesse momento. Maierovitch nega.

“Não estamos recomendando ou deixando de recomendar um comportamento para as mulheres. O que nós queremos é que elas tenham informações claras que lhes permitam tomar uma decisão se esse é o melhor momento para engravidar ou se é possível esperar um pouco até que haja mais segurança”, disse.

* Deutsche Welle